A Fé que Atravessou o Atlântico:
A História da Igreja do Bom Jesus de Matosinhos em Lagoa Dourada
A História da Igreja do Bom Jesus de Matosinhos em Lagoa Dourada
A Igreja do Bom Jesus de Matosinhos não é apenas um marco arquitetónico em Lagoa Dourada, Minas Gerais; é um testemunho vivo de uma devoção que nasceu na Idade Média portuguesa e fincou raízes profundas no coração das Minas Gerais. Em palestra recente, o historiador Olinto Rodrigues detalhou a trajetória desta instituição, desde a sua fundação humilde no século XVIII até à sua reconstrução monumental no século XX.
O culto ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos teve origem nas proximidades da cidade do Porto, em Portugal, em torno de uma imagem milagrosa datada do século XI ou XII. Segundo a lenda, a imagem teria sido esculpida por Nicodemos e chegou às praias portuguesas numa embarcação sem tripulação.
Esta devoção marítima foi trazida para o Brasil por imigrantes portugueses que, ao cruzarem o oceano, pediam a proteção do Bom Jesus. Em Minas Gerais, o culto expandiu-se rapidamente, tornando-se o centro de grandes santuários, sendo o de Lagoa Dourada um dos exemplos mais significativos da região.
A história da capela em Lagoa Dourada começa com a iniciativa do português Manuel Ribeiro dos Santos, natural de Coimbra. Por volta de 1750-1760, Manuel ergueu uma primitiva capela de madeira e taipa à beira do caminho que ligava o arraial às vilas de São João e São José.
Mais do que um templo, Manuel criou uma estrutura de acolhimento. Construiu casas ao redor da ermida para servir de morada ao capelão e para abrigar os romeiros que vinham de longe para as festividades do Jubileu do Bom Jesus, estabelecendo ali um ponto de fé e hospitalidade.
Registos de 1854 revelam a riqueza do acervo que a capela possuía, incluindo imagens de grande porte do Calvário (Santa Madalena, São João Evangelista e Nossa Senhora).
Um ponto curioso destacado por Olinto Rodrigues é o destino de um arcaz (móvel de sacristia) de grande valor artístico. Pesquisas indicam que este móvel, originalmente de Lagoa Dourada, integra hoje o acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, evidenciando a importância da talha produzida para esta capela.
No início do século XX, a antiga estrutura de pau a pique encontrava-se em ruínas. Em 1905, a decisão foi drástica: a demolição completa para dar lugar a um novo edifício. Todas as peças sacras e artísticas foram guardadas nas salas laterais da Igreja Matriz.
Construção: A obra atual foi executada entre 1911 e 1920, contando com a mão de obra de imigrantes italianos que introduziram o uso do tijolo na construção. Em 30 de maio de 1911 teve o início de uma nova construção sob a égide do empreiteiro Augusto Buzatti. Buzatti foi responsável por conferir à igreja a volumetria e a estabilidade que observamos hoje.
Arquitetura: O novo prédio seguiu o estilo eclético, afastando-se do barroco tradicional mineiro. Caracteriza-se por uma nave única e uma fachada com frontão curvo e relevos trabalhados.
Apesar das mudanças arquitetónicas, a igreja preserva um dos tesouros mais valiosos de Minas Gerais: o seu retábulo de estilo Dom João V.
Qualidade Artística: Segundo Olinto, a qualidade da talha é excepcional, comparando-se apenas às grandes matrizes da região, como as de Tiradentes e São João del-Rei.
Restauração: Entre 2021 e 2023, o retábulo passou por um processo de restauração de grande envergadura coordenado pelo pesquisador Carlos Magno de Araújo, que removeu repinturas grosseiras de décadas passadas, revelando a originalidade e o esplendor da talha policromada do século XVIII. O projeto foi financiado com apoio da prefeitura, via Conselho Municipal de Patrimônio.
Um dos aspectos mais fascinantes e academicamente relevantes da Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos não reside apenas em sua arquitetura, mas no acervo de imaginária sacra que ela abriga. Por décadas, a autoria das imagens do retábulo-mor e de outras peças da paróquia permaneceu envolta em anonimato. Foi apenas no início do século XXI que pesquisas sistemáticas revelaram a existência de um artífice singular, batizado por especialistas como o "Mestre de Lagoa Dourada".
A Igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos não deve ser analisada como um objeto isolado, mas como parte de um complexo devocional que inclui o seu entorno imediato. Um dos elementos mais distintivos de sua implantação são as muretas de tijolinhos que acompanham a subida para o templo.
Diferente do Santuário de Congonhas, onde os Passos da Paixão são abrigados em capelas autônomas de pedra e cal , em Lagoa Dourada eles foram concebidos de forma mais integrada ao percurso de pedestres. Aplicados em muretas graciosas, os painéis que representam os passos da Via Sacra criam uma narrativa visual que prepara o fiel para o encontro com a imagem principal do Bom Jesus no altar-mor.
Essa solução arquitetônica, revitalizada em intervenções recentes (março de 2024), demonstra uma adaptação inteligente do modelo de peregrinação às proporções e recursos da cidade. O uso do tijolo aparente nas muretas confere um aspecto rústico e acolhedor, contrastando com a brancura das paredes da igreja e integrando-se organicamente à paisagem urbana da colina.
Em 2 de junho de 1977, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) oficializou o tombamento da igreja e de seu acervo imaginário, inscrevendo-os no Livro de Tombo n.° II de Belas Artes. Este reconhecimento estadual coloca o templo em um patamar de importância que transcende os limites do município, integrando-o ao conjunto de bens que definem a identidade cultural mineira.
No âmbito municipal, a igreja é protegida pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Lagoa Dourada. O município mantém um inventário atualizado de seus bens culturais, com atas e documentos que registram o acompanhamento constante do estado de conservação do templo. Essa gestão local é crucial, pois permite uma resposta rápida a problemas cotidianos e mantém a comunidade engajada na proteção de seu patrimônio.
Recentemente, a igreja passou por um processo significativo de reforma e restauração, sendo reaberta ao público no final de 2023. Esta intervenção não foi apenas estética, mas estrutural, visando sanar problemas que ameaçavam a integridade do edifício e de suas obras de arte. A revitalização do espaço, incluindo as muretas da Via Sacra, devolveu à cidade um de seus pontos turísticos e religiosos mais emblemáticos.
A restauração foi acompanhada por iniciativas de educação patrimonial, como a exposição "Por Suas Chagas Fomos Curados", de iniciativa da Venerável Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos, que buscou aproximar a população da história da devoção e do valor artístico das peças restauradas. Tais ações são estratégicas para garantir que o patrimônio seja percebido não como algo "velho", mas como uma herança viva que define o pertencimento da comunidade.
Para situar a igreja de Lagoa Dourada no panorama mais amplo, é útil compará-la com outros centros de devoção ao Bom Jesus mencionados na literatura técnica. Esta comparação ajuda a entender o que é único em Lagoa Dourada e o que é compartilhado pela tradição mineira.
O Santuário de Congonhas representa o ápice do Barroco, com o adro dos 12 profetas em pedra-sabão e as 66 esculturas de Aleijadinho nas capelas dos passos. Já a Paróquia de Matosinhos em São João del-Rei, embora tenha origens em 1774, possui uma igreja matriz moderna, inaugurada em 1980, após a demolição da pequena capela colonial original que estava em situação crítica.
Lagoa Dourada ocupa um lugar intermediário e singular: possui uma estrutura arquitetônica do início do século XX (reconstrução de 1911), mas preserva um retábulo e imagens do século XVIII de um mestre anônimo redescoberto. Diferente de São João del-Rei, que optou por uma nova matriz monumental, Lagoa Dourada manteve a escala e a localização da capela histórica, realizando uma reconstrução que hoje já se tornou, ela mesma, patrimônio histórico.
O futuro da igreja está intimamente ligado à sua capacidade de se inserir nos circuitos turísticos do estado. Lagoa Dourada já é nacionalmente famosa por sua gastronomia, especialmente o rocambole. A estratégia de associar o turismo gastronômico ao patrimônio histórico-religioso é vital. A revitalização do complexo do Bom Jesus pode transformar o local em um ponto de parada obrigatória na Estrada Real e no Circuito Trilha dos Inconfidentes.
A reabertura do templo no final de 2023 com uma infraestrutura renovada permite que a igreja acolha não apenas fiéis, mas também o "turista cultural" interessado na história da arte mineira e na obra do Mestre de Lagoa Dourada.
A Igreja do Bom Jesus de Matosinhos permanece como um símbolo de resistência cultural. Entre a simplicidade da taipa original e a robustez dos tijolos do século XX, o que se manteve inalterado foi o zelo pela preservação de um legado que une gerações e continentes através da fé.
Este texto foi escrito por Ladislau Júnio de Resende Melo e baseado na palestra de Olinto Rodrigues.