O fenômeno das irmandades e confrarias leigas nas Minas Gerais do século XVIII e XIX representa uma das estruturas mais complexas e fundamentais da organização social brasileira colonial e imperial. Em um cenário onde as ordens religiosas regulares — como os franciscanos, beneditinos e jesuítas — foram impedidas de se estabelecer permanentemente na capitania aurífera pela Coroa Portuguesa, os leigos assumiram o papel de protagonistas na manutenção do culto, na assistência social e na construção de um patrimônio artístico inigualável. No contexto específico de Lagoa Dourada, estas associações não apenas moldaram o ambiente urbano, mas consolidaram identidades coletivas que persistem até a contemporaneidade. Este relatório analisa minuciosamente a trajetória dessas instituições, com um enfoque exauriente na Venerável Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos, cujas atividades foram recentemente revitalizadas após mais de dois séculos de história documentada.
O povoamento da região de Lagoa Dourada está intrinsecamente ligado ao ciclo do ouro e à expansão territorial mineira no início do século XVIII. A descoberta de jazidas auríferas nas margens de uma lagoa — que, pela abundância do metal, foi batizada de "Lagoa Dourada" — atraiu uma população flutuante de mineradores e aventureiros. No entanto, a fixação definitiva das famílias e a estabilidade administrativa só ocorreram com a abertura de caminhos estratégicos, notadamente a via direta entre São João del-Rei e Congonhas do Campo, aberta pelo coronel Antônio de Oliveira Leitão por volta de 1713.
A evolução de arraial para distrito de paz em 1750 marcou a necessidade de instituições que regulassem a vida espiritual e social da comunidade. É nesse vácuo de poder eclesiástico institucionalizado que surgem as irmandades. Estas agremiações funcionavam como corporações de auxílio mútuo, garantindo que seus membros recebessem assistência na doença e, crucialmente, um sepultamento digno acompanhado de missas de sufrágio. Entre 1708 e 1815, foram identificadas 517 irmandades em Minas Gerais, um número que reflete a densidade dessa organização social em territórios mineradores e agrícolas.
A hierarquia social de Lagoa Dourada era refletida na tipologia de suas irmandades. As associações eram frequentemente divididas por critérios de "cor", classe social e prestígio administrativo.
A distribuição das devoções seguia um padrão observado em outras cidades da Comarca do Rio das Mortes, como São João del-Rei e Prados, à qual Lagoa Dourada esteve jurisdicionalmente vinculada por longo período.
Esta estrutura organizativa permitia que cada segmento da sociedade encontrasse um espaço de representatividade e proteção, ao mesmo tempo em que reforçava as distinções de prestígio através da monumentalidade de seus altares e da riqueza de suas procissões.
A devoção ao Senhor dos Passos é uma das mais profundas e esteticamente ricas das Minas Gerais, focada na representação dramática da Paixão de Cristo. Em Lagoa Dourada, a Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos possui uma trajetória que exemplifica o rigor burocrático e a resiliência devocional da região.
Embora tenha sido fundada em livro próprio em 29 de julho de 1791, os registros oficiais no Arquivo Histórico Ultramarino indicam que os "devotos do Senhor dos Passos do arraial da Lagoa Dourada" iniciaram o processo de formalização de sua confraria entre 1807 e 1809. Na época, o arraial pertencia à Freguesia de Prados, sob a jurisdição do Bispado de Mariana.
O pedido de faculdade para a ereção da confraria era um procedimento que exigia a apresentação de um "Compromisso" (estatuto), que deveria ser aprovado pela Mesa do Desembargo do Paço, em Lisboa, ou por autoridades delegadas no Brasil. Esse estatuto definia não apenas os rituais, mas toda a administração financeira e os deveres dos oficiais, como o Provedor, o Escrivão e o Tesoureiro. A criação dessa confraria em Lagoa Dourada faz parte de uma "segunda onda" de fundações de irmandades de Passos em Minas, ocorridas no início do século XIX, após a consolidação das irmandades similares em núcleos maiores como Vila Rica e São João del-Rei.
Um evento de suma importância para a memória de Lagoa Dourada foi a reativação formal da Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos em 2022. Este ato não foi meramente burocrático, mas representou o resgate de uma tradição que completava 230 anos de criação simbólica na comunidade paroquial.
A cerimônia de reativação incluiu a missa solene e a bênção das vestimentas, elementos fundamentais para a identidade visual da confraria. A murça e a opa utilizadas pelos confrades não são apenas adornos, mas símbolos de compromisso religioso e distinção social dentro da hierarquia da Igreja. Atualmente, a confraria está registrada como uma organização religiosa ativa, mantendo sua sede e atividades voltadas para a preservação cultural e litúrgica.
Historicamente, as confrarias mineiras enfrentavam desafios financeiros significativos. Os recursos provinham das "anuais" (mensalidades pagas pelos irmãos) e de esmolas arrecadadas em procissões. Muitas vezes, as instituições operavam em déficit, o que exigia que os oficiais da Mesa, particularmente os tesoureiros, utilizassem recursos pessoais para cobrir as despesas das festividades e da manutenção dos altares.
O patrimônio da confraria é meticulosamente catalogado em "Livros do Tombo", e qualquer alienação de bens (venda ou troca) exige autorização expressa do Conselho. Esta gestão patrimonial é vital, pois as imagens sacras, as pratas litúrgicas e as vestimentas bordadas a ouro constituem o capital simbólico da instituição.
A atividade primordial da Confraria dos Passos ocorre durante a Quaresma e a Semana Santa. Este período é marcado por uma sequência de rituais que transformam a cidade em um cenário vivo de Jerusalém.
O calendário litúrgico organizado pela confraria segue uma tradição secular que envolve:
Procissão de Depósito: O transporte solene da imagem do Senhor dos Passos da Igreja Matriz para a Igreja de Nossa Senhora das Graças, onde permanece em vigília antes do grande encontro.
Razoura do Senhor dos Passos: Pequena procissão que relembra o caminho de Jesus até o calvário.
Procissão do Encontro: O momento mais emocional e aguardado, onde as imagens se encontram em praça pública, geralmente acompanhadas pelo "Sermão do Encontro" e pelo canto da Verônica. A veneranda imagem do Senhor dos Passos sai da Igreja das Graças e a imagem de Nossa Senhora das Dores sai da Igreja Matriz.
Rasoura de Nossa Senhora das Dores: Pequena procissão que relembra o caminho de Maria à procura de seu Filho.
Procissão de Dores: A imagem de Nossa Senhora das Dores visita os Passos das Dores.
Procissão do Enterro: Realizada na Sexta-feira Santa, é a maior procissão realizada na paróquia, quanto de extensão, quanto de número de fiéis. Representa o transporte do corpo de Jesus ao sepulcro.
A participação da Sociedade Musical Lyra Lagoense e Associação Musical Santo Antônio é indissociável desses ritos. A execução de marchas fúnebres, como a composição "Derradeira Homenagem", confere uma atmosfera de solenidade e luto que é característica da cultura mineira.
Um elemento distintivo do patrimônio de Lagoa Dourada e da região do Rio das Mortes são os "Passos de Rua" — pequenas capelas implantadas no tecido urbano que servem como estações para a adoração da Paixão. Estas estruturas permitem que a religiosidade saia do espaço confinado das grandes igrejas e capte a atenção dos fiéis no cotidiano da cidade.
Infelizmente todas as Capelas Passos de Lagoa Dourada foram demolidas no século XX, sendo hoje utilizados espaços preparadoas por moradores em suas casas. A Confraria deseja ainda reconstruir esses passos sob o mesmo estilo dos originais a fim de resgatar nossas tradições.
Arquitetonicamente, estas capelas costumam apresentar fachadas simples com nichos internos que abrigam cenas ou imagens sacras, servindo como centros de piedade e marcos visuais para a comunidade. Em cidades próximas como Tiradentes, existem até dez destas capelas, e Lagoa Dourada mantém a tradição do uso destes espaços durante a Quaresma para a realização da Via-Sacra.
Um dos aspectos mais singulares da cultura de Lagoa Dourada é a preservação de rituais populares de origem ancestral, como a "Encomendação das Almas". Esta prática, que ocorre tipicamente nas sextas-feiras da Quaresma a partir da meia-noite, é um testemunho da profunda relação da comunidade com o mistério da morte e do purgatório.
Ao lado da Confraria dos Passos, a extinta Irmandade de Nossa Senhora do Rosário desempenhava um papel fundamental na história local. Esta associação, que congregava a população de origem africana, foi responsável por uma das devoções mais antigas da cidade.
A primeira capela do Rosário em Lagoa Dourada era uma construção modesta em taipa de pilão, datada do final do século XVIII. Este templo abrigava uma joia do barroco mineiro: uma imagem de Nossa Senhora do Rosário esculpida em 1790 por um artista cuja técnica refinada lhe rendeu o epíteto de "Mestre de Lagoa Dourada".
Em 1943, um evento traumático alterou o patrimônio da cidade. A antiga ermida de taipa foi demolida para permitir a passagem de uma nova via de ligação intermunicipal (atual Rua Marques de Valença) e a expansão da malha urbana. Sob a liderança do Padre José D'Angelo Neto e com doação de terras pela família Gomes, uma nova igreja foi erguida com traços ecléticos. Embora a arquitetura original tenha sido sacrificada pela "modernização" rodoviária, a irmandade manteve a guarda da imagem original de 1790, que continua sendo objeto de profunda veneração.
Dentro da hierarquia das associações leigas, a Irmandade do Santíssimo Sacramento era a mais elevada. Sua existência remonta à Idade Média e sua autorização canônica foi consolidada pelo Papa Paulo III em 1539. Em Lagoa Dourada, como em todo o Brasil colonial, ser membro desta irmandade era sinônimo de pertencer à elite administrativa e social.
O principal objetivo desta irmandade é o zelo pela Hóstia Consagrada. Seus membros tem o privilégio de ocupar o altar-mor da matriz e são responsáveis por organizar a festa de Corpus Christi e o "Tríduo Pascal". Os oficiais da irmandade vestem opas de cor vermelha e acompanham o Santíssimo Sacramento sob um pálio durante as procissões.
Recentemente, a paróquia de Lagoa Dourada tem incentivado a renovação desta irmandade, buscando atrair novos fiéis para manter a piedade eucarística e o espírito de serviço. A participação ativa desta instituição nas festividades de 70 anos de sacerdócio de Monsenhor José Hugo demonstra a vitalidade contínua dessa estrutura na vida pública e religiosa da cidade.
As irmandades de Lagoa Dourada, lideradas pela Venerável Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos e pela Irmandade do Santíssimo Sacramento, continuam a ser o coração pulsante da cidade. Elas não são relíquias do passado, mas instituições que souberam se adaptar aos novos tempos, promovendo restauros científicos e reativando tradições que estavam latentes.
O sucesso da restauração da Igreja de Matosinhos em 2023 e a reativação da Confraria dos Passos em 2022 demonstram que existe uma simbiose entre a fé, a ciência do restauro e a política cultural. O futuro dessas associações depende da capacidade de envolver as novas gerações, transformando o patrimônio histórico em um ativo de turismo cultural sustentável, mas, acima de tudo, mantendo o sentido original de pertencimento e espiritualidade que deu origem a estas agremiações há mais de duzentos anos.
Portanto, que a "Lagoa Dourada" é rica não apenas no ouro que deu nome ao arraial, mas no "ouro espiritual" e artístico acumulado por séculos de devoção leiga, que transformou a madeira, a pedra e o canto em uma das mais belas expressões da alma brasileira.
Este texto foi escrito por Ladislau Júnio de Resende Melo