A Venerável Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos: Histórico e Estrutura

A devoção ao Senhor dos Passos é uma das mais profundas e esteticamente ricas das Minas Gerais, focada na representação dramática da Paixão de Cristo. Em Lagoa Dourada, a Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos possui uma trajetória que exemplifica o rigor burocrático e a resiliência devocional da região.   


Fundação e Reconhecimento Institucional (1791-1809)

Embora tenha sido fundada em livro próprio em 29 de julho de 1791, os registros oficiais no Arquivo Histórico Ultramarino indicam que os "devotos do Senhor dos Passos do arraial da Lagoa Dourada" iniciaram o processo de formalização de sua confraria entre 1807 e 1809. Na época, o arraial pertencia à Freguesia de Prados, sob a jurisdição do Bispado de Mariana.   

O pedido de faculdade para a ereção da confraria era um procedimento que exigia a apresentação de um "Compromisso" (estatuto), que deveria ser aprovado pela Mesa do Desembargo do Paço, em Lisboa, ou por autoridades delegadas no Brasil. Esse estatuto definia não apenas os rituais, mas toda a administração financeira e os deveres dos oficiais, como o Provedor, o Escrivão e o Tesoureiro. A criação dessa confraria em Lagoa Dourada faz parte de uma "segunda onda" de fundações de irmandades de Passos em Minas, ocorridas no início do século XIX, após a consolidação das irmandades similares em núcleos maiores como Vila Rica e São João del-Rei.   


A Reativação em 2022 e o Marco de 230 Anos

Um evento de suma importância para a memória de Lagoa Dourada foi a reativação formal da Confraria do Senhor Bom Jesus dos Passos em 2022. Este ato não foi meramente burocrático, mas representou o resgate de uma tradição que completava 230 anos de criação simbólica na comunidade paroquial.

A cerimônia de reativação incluiu a missa solene e a bênção das vestimentas, elementos fundamentais para a identidade visual da confraria. A murça e a opa utilizadas pelos confrades não são apenas adornos, mas símbolos de compromisso religioso e distinção social dentro da hierarquia da Igreja. Atualmente, a confraria está registrada como uma organização religiosa ativa, mantendo sua sede e atividades voltadas para a preservação cultural e litúrgica.   


Dinâmica Administrativa e Financeira

Historicamente, as confrarias mineiras enfrentavam desafios financeiros significativos. Os recursos provinham das "anuais" (mensalidades pagas pelos irmãos) e de esmolas arrecadadas em procissões. Muitas vezes, as instituições operavam em déficit, o que exigia que os oficiais da Mesa, particularmente os tesoureiros, utilizassem recursos pessoais para cobrir as despesas das festividades e da manutenção dos altares.   

O patrimônio da confraria é meticulosamente catalogado em "Livros do Tombo", e qualquer alienação de bens (venda ou troca) exige autorização expressa do Conselho. Esta gestão patrimonial é vital, pois as imagens sacras, as pratas litúrgicas e as vestimentas bordadas a ouro constituem o capital simbólico da instituição.   


O Ciclo dos Passos e a Liturgia da Paixão em Lagoa Dourada

A atividade primordial da Confraria dos Passos ocorre durante a Quaresma e a Semana Santa. Este período é marcado por uma sequência de rituais que transformam a cidade em um cenário vivo de Jerusalém.   

O calendário litúrgico organizado pela confraria segue uma tradição secular que envolve:

A participação da Sociedade Musical Lyra Lagoense, Associação Musical Santo Antônio e Coro & Orquestra Santa Cecília é indissociável desses ritos. A execução de marchas fúnebres, como a composição "Derradeira Homenagem", confere uma atmosfera de solenidade e luto que é característica da cultura mineira.   


A Arquitetura da Fé: Os Passos de Rua

Um elemento distintivo do patrimônio de Lagoa Dourada e da região do Rio das Mortes são os "Passos de Rua" — pequenas capelas implantadas no tecido urbano que servem como estações para a adoração da Paixão. Estas estruturas permitem que a religiosidade saia do espaço confinado das grandes igrejas e capte a atenção dos fiéis no cotidiano da cidade.   

Infelizmente todas as Capelas Passos de Lagoa Dourada foram demolidas no século XX, sendo hoje utilizados espaços preparadoas por moradores em suas casas. A Confraria deseja ainda reconstruir esses passos sob o mesmo estilo dos originais a fim de resgatar nossas tradições.

Arquitetonicamente, estas capelas costumam apresentar fachadas simples com nichos internos que abrigam cenas ou imagens sacras, servindo como centros de piedade e marcos visuais para a comunidade. Em cidades próximas como Tiradentes, existem até dez destas capelas, e Lagoa Dourada mantém a tradição do uso destes espaços durante a Quaresma para a realização da Via-Sacra.   


Tradições Imateriais: A Encomendação das Almas

Um dos aspectos mais singulares da cultura de Lagoa Dourada é a preservação de rituais populares de origem ancestral, como a "Encomendação das Almas". Esta prática, que ocorre tipicamente nas sextas-feiras da Quaresma a partir da meia-noite, é um testemunho da profunda relação da comunidade com o mistério da morte e do purgatório.